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Chico Buarque - Construção

Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido Agonizou no meio do passeio público Morreu na contramão atrapalhando o tráfego Amou daquela vez como se fosse o último Beijou sua mulher como se fosse a única E cada filho como se fosse o pródigo E atravessou a rua com seu passo bêbado Subiu a construção como se fosse sólido Ergueu no patamar quatro paredes mágicas Tijolo com tijolo num desenho lógico Seus olhos embotados de...

Chico Buarque - Morena dos olhos d'água

Morena, dos olhos d'água, Tira os seus olhos do mar. Vem ver que a vida ainda vale O sorriso que eu tenho pra te dar. Descansa um meu pobre peito Que jamais enfrenta o mar, Mas que tem abraço estreito, morena, Com jeito de te agradar. Vem ouvir lindas histórias Que por teu amor sonhei. Vem saber quantas vitórias, morena, Por mares que só eu sei. O teu homem foi-se embora, Prometendo voltar já. Mas as ondas não tem hora, morena, De partir ou de voltar. Passa a vela e vai-se embora Passa o tempo e vai também. Mas meu canto ainda te implora, morena, Agora, morena, vem.